A citricultura possui uma rica e longa história em São Paulo, que remonta ao século XVI, quando os portugueses trouxeram as frutas cítricas para o Brasil. Com o passar dos anos, essas variedades se estabeleceram no estado e deram origem a uma robusta cadeia produtiva com alcance global. Entre as diversas laranjas cultivadas, destaca-se uma que é chamada de “umbigo”, conhecida por suas peculiaridades de sabor e maturação, além de ter conquistado o interesse de produtores em outros países.
No início do século XX, a citricultura paulista começou a se transformar significativamente. Essa evolução foi fundamental para a estruturação do setor agrícola. Dirceu Mattos Jr., diretor do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, que faz parte do Instituto Agronômico (IAC-APTA) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, aponta que a fundação do Centro representou um ponto de virada nesse desenvolvimento.
“Nos primeiros anos do século 20, a citricultura em São Paulo se beneficiou grandemente da introdução de novas plantações, da utilização de mudas enxertadas e do fortalecimento da assistência técnica ao setor, especialmente nas áreas de pesquisa e inovação. Um marco desse progresso foi a criação da Estação Experimental de Limeira em 1928, que mais tarde se transformou no Centro de Citricultura do IAC-APTA em 1993”, explicou.
Atualmente, o estado abriga 54 variedades comerciais de laranja registradas no Centro, cada uma com características distintas em termos de sabor e período de colheita. A laranja Pera, por exemplo, compõe cerca de 30% da produção total das laranjas doces e é destinada tanto ao consumo in natura quanto à indústria sucroalcooleira. Outras variedades relevantes incluem Natal, Valência e Folha Murcha.
Impacto da produção paulista no comércio internacional
O estado é responsável por impressionantes 80% da produção nacional de laranjas, conforme informações do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). A conexão entre pesquisa e prática agrícola é evidente na composição dos pomares paulistas: aproximadamente 90% das variedades cultivadas resultam do trabalho contínuo ou preservação das matrizes genéticas pelo Instituto Agronômico (IAC-APTA).
Esse impacto econômico é palpável. Em 2025, as laranjas destinadas à indústria geraram cerca de R$ 13,1 bilhões em São Paulo, posicionando-se entre os produtos com maior Valor da Produção Agropecuária (VPA) do estado. Para as frutas consumidas frescas, o total alcançou R$ 3,8 bilhões segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA).
“Nos últimos trinta anos, a citricultura paulista mostrou-se resiliente frente a desafios fitossanitários, climáticos e econômicos, além das repercussões das políticas globais. Isso resultou em um crescimento expressivo na produtividade – um aumento que chega a duas vezes e meia”, ressaltou Dirceu Mattos Jr., destacando o sucesso notável desse setor.
As exportações também refletem essa presença internacional: entre janeiro e setembro de 2026, os sucos geraram US$ 1,42 bilhão em receitas para o agronegócio paulista, com 96% desse total referente ao suco de laranja.
Uma variedade que conquistou o mundo
A variedade Baía teve sua origem a partir de uma mutação espontânea descoberta na Bahia no século XIX e ganhou renome globalmente. Segundo Dirceu Mattos Jr., essa trajetória ilustra como uma cultivar brasileira pode obter destaque em mercados internacionais.
“A Baía é considerada uma variedade fascinante; sua seleção pela indústria permitiu que ela se tornasse amplamente reconhecida. Levada para países como Estados Unidos e Austrália, nos EUA ficou conhecida como Washington Navel – ‘Navel’ refere-se ao ‘umbigo’, característica marcante dessa fruta. Hoje ela desempenha um papel crucial na produção californiana.”
Vale destacar que nem todos os frutos conhecidos como laranjas são verdadeiramente laranjas; um exemplo disso são os kumquats ou laranjas-anãs. Essas pequenas frutas são consumidas com casca e frequentemente utilizadas na confecção de doces e geleias.
Avanços científicos no cultivo das laranjas
No Centro de Citricultura Sylvio Moreira, diversas pesquisas são realizadas pelo Instituto Agronômico com foco em melhoramento genético, nutrição vegetal e manejo sustentável. Nos últimos três anos foram lançadas 24 novas variedades cítricas disponíveis para os agricultores e indústrias.
Além disso, o Centro abriga o Banco de Germoplasma de Citros do IAC – considerado uma das coleções mais significativas mundialmente. Esse banco conserva materiais genéticos essenciais para pesquisas voltadas ao aprimoramento das variedades cítricas.
Prevenção contra doenças nos pomares
Um dos principais desafios enfrentados pela citricultura é o greening ou HLB (Huanglongbing), uma enfermidade associada a bactérias transmitidas pelo psilídeo – um inseto pequeno mas problemático. A Diretoria de Defesa Agropecuária da Secretaria Estadual monitora essa doença juntamente com as medidas preventivas adotadas pelos produtores.
Os citricultores devem realizar inspeções regulares em suas plantações cítricas a cada três meses e enviar relatórios semestrais sobre Cancro Cítrico/Greening através do sistema informatizado GEDAVE. Em 2026 novas normas estaduais foram implementadas para categorizar os municípios conforme a incidência da doença com base nos relatórios dos produtores. Essa classificação determina diferentes abordagens: nas áreas com baixa incidência há obrigatoriedade na eliminação imediata das plantas afetadas independentemente da idade; já nas áreas mais afetadas isso se aplica apenas aos pomares jovens até três anos. O controle sobre o psilídeo continua sendo obrigatório por todo o estado.
Além disso, as autoridades também verificam a produção das mudas cítricas para assegurar sua origem genética e as condições fitossanitárias necessárias para novos cultivos.
