A calêndula pôr do sol (Calendula officinalis L.), uma flor comestível repleta de compostos antioxidantes, vem ganhando destaque nas áreas de alimentação e cosméticos. Com o objetivo de estimular o cultivo dessa planta, que ainda é pouco explorada comercialmente, um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), desenvolveu uma abordagem sustentável: um biofertilizante feito a partir do bagaço de uva, que demonstrou aumentar a concentração das substâncias benéficas e favorecer o crescimento das flores.
O bagaço utilizado para criar essa fórmula é um subproduto gerado no processo de vinificação, representando entre 20% e 25% da massa total da uva processada, resultando em uma produção anual estimada entre 9 a 13 milhões de toneladas mundialmente.
“Optamos pelo bagaço da uva devido à sua relevância como resíduo na indústria do vinho, além de ser rico em substâncias valiosas, como fibras, açúcares, antioxidantes e pigmentos naturais. Esse material possui um grande potencial para gerar produtos inovadores com alto valor agregado”, explica Luiz Eduardo Nochi Castro, integrante da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA-Unicamp). Os resultados dessa pesquisa foram publicados na revista ACS Omega em junho e fazem parte do doutorado de Castro, financiado pela FAPESP, que também recebeu apoio adicional através de dois projetos (18/14938-4 e 24/10205-3).
A seleção da calêndula pôr do sol ocorreu em função da colaboração com os colegas da UFPR, que já estavam envolvidos em estudos sobre cultivo de flores.
Antes da aplicação do bagaço na plantação, os pesquisadores converteram esse resíduo em digestato, um biofertilizante líquido rico em nutrientes resultante da digestão anaeróbia – um processo onde microrganismos quebram a matéria orgânica sem a presença de oxigênio. Em 2023, esse adubo natural foi testado no cultivo da calêndula durante duas estações (verão e inverno), possibilitando a análise dos efeitos climáticos no desenvolvimento das flores.
Foram exploradas diferentes quantidades do biofertilizante e várias condições de irrigação para investigar seus impactos no crescimento e qualidade das plantas. Após a colheita das flores, elas passaram por um processo de liofilização para preservar suas características por mais tempo. Em seguida, diversas análises foram realizadas para avaliar as influências do biofertilizante na planta.
“Analisamos não apenas as flores em si, mas também o desenvolvimento global das plantas, incluindo folhas e raízes. Foram feitas avaliações físico-químicas para determinar a qualidade das flores produzidas e comparar com as obtidas através do cultivo convencional”, detalha Tânia Forster, professora da FEA-Unicamp e orientadora de Castro.
“Observamos que tanto a quantidade do digestato quanto a irrigação influenciam nos resultados. Doses moderadas proporcionaram os melhores desempenhos; já quantidades excessivas tiveram efeito adverso no desenvolvimento das plantas. Isso evidencia que o uso do digestato deve ser equilibrado”, ressalta Forster.
Nos experimentos realizados, o biofertilizante alterou consideravelmente o perfil nutricional das flores. Por exemplo, no teste feito durante o verão, o uso do digestato aumentou significativamente a concentração de betacaroteno – um importante precursor da vitamina A e antioxidante – atingindo até 80,9 miligramas por 100 gramas de flor liofilizada (um aumento superior a 250% se comparado ao cultivo tradicional sem o resíduo), além de elevar os níveis totais de compostos fenólicos e a atividade antioxidante. Já no inverno, destacou-se a retenção de pigmentos e minerais, comprovando que o bagaço pode enriquecer o perfil nutricional das plantas nas diferentes estações.
Próximos passos
Apesar dos resultados positivos obtidos até agora, estudos adicionais são necessários para avaliar a viabilidade técnica e econômica desta solução antes que ela possa ser implementada em larga escala. É fundamental entender como essa metodologia poderia ser integrada às vinícolas ou outras empresas que utilizam digestão anaeróbia para tratar resíduos, além de examinar aspectos como custos, logística e mercado voltado para flores comestíveis.
Uma nova linha de investigação da equipe se concentra na extração de compostos valiosos – incluindo antioxidantes, fenólicos, açúcares e pigmentos naturais. Esses materiais podem ser utilizados para desenvolver produtos com maior valor agregado como ingredientes alimentares ou cosméticos.
“Pretendemos usar o bagaço não apenas para produzir biofertilizantes destinados ao cultivo das flores comestíveis mas também para geração de energia. Posteriormente, tanto as flores quanto os resíduos desse cultivo poderão ser transformados em novos produtos valiosos. Dessa forma, visamos estabelecer uma cadeia produtiva mais sustentável baseada nos princípios da economia circular”, finaliza Castro.
O artigo intitulado Sustainable valorization of grape pomace digestate as fertilizer: Effects on the agronomic and biochemical performance of Calendula officinalis L. under variable irrigation regimes está disponível em: pubs.acs.org/acsodf/article/11/25/36990/5165327/.
