Pesquisa de São Paulo recebe prêmio e revela tática do mofo azul que causa danos em frutas cítricas.
Ao avistar um pequeno ponto branco-azulado em laranjas, limões ou tangerinas, muitos agricultores já temem a perda total da colheita. Quando o fungo Penicillium italicum, associado ao mofo azul, se acomoda na casca do fruto, a planta rapidamente ativa suas defesas químicas na esperança de bloquear a infecção.
Entretanto, o esforço é quase fútil, pois o P. italicum libera moléculas que não apenas desativam as defesas naturais da fruta, mas também eliminam microrganismos benéficos (endofíticos) que habitam a superfície das plantas.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) foram os primeiros a desvendar essa estratégia de ataque do patógeno em estudos financiados pela FAPESP (projetos 22/02992-0 e 19/17721-9). Essa descoberta abre oportunidades para o desenvolvimento de novas técnicas para combater o fungo, que é uma das principais ameaças à citricultura no Brasil.
O artigo que documenta essas descobertas foi publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry e foi reconhecido pela revista americana como o melhor artigo científico de 2025.
“O Brasil se destaca como o maior produtor de laranja e líder mundial na exportação de suco, porém enfrenta significativas perdas pós-colheita devido a fungos. O mofo azul [P. italicum] é a segunda praga mais preocupante, perdendo apenas para o mofo verde [P. digitatum], que é responsável por até 90% das perdas nas regiões tropicais. Apesar disso, há pouca atenção direcionada ao mofo azul”, afirma Taícia Pacheco Fill, professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e principal autora da pesquisa.
“Assim, entender as táticas e os compostos químicos utilizados por esses patógenos é crucial para criar métodos de controle mais eficazes sem depender exclusivamente de agrotóxicos”, complementa a pesquisadora.
Atualmente, o combate ao mofo azul depende do uso de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que enfrentam crescente resistência e suscitam preocupações ambientais.
Para identificar as moléculas que atacam os microrganismos benéficos, os cientistas analisaram as substâncias químicas produzidas pelo patógeno durante a infecção na fruta utilizando técnicas avançadas de metabolômica. “Conseguimos detectar compostos essenciais para a infecção. Em laboratório, observamos que na ausência dessas substâncias químicas, o crescimento do fungo P. italicum é bastante reduzido, abrindo caminho para novas abordagens de combate. Nossa próxima etapa envolve desenvolver inibidores específicos dessas vias metabólicas que possam neutralizar o patógeno sem prejudicar o hospedeiro [a fruta]”, explica Fill. Esta parte da pesquisa foi publicada posteriormente na revista Postharvest Biology and Technology.
Caminho percorrido
A rápida propagação do fungo entre as frutas é um fenômeno conhecido como nesting, responsável por até 50% das perdas na cultura na China, que ocupa a terceira posição entre os maiores produtores de laranja do mundo e possui um clima predominantemente temperado onde o mofo azul prospera com eficácia.
Ao examinar diferentes períodos de infecção, os pesquisadores descobriram que o fungo se estabelece na casca da fruta através de microlesões. “Nos primeiros dias após a infecção, ele começa a degradar a parede celular da fruta utilizando enzimas enquanto esta responde produzindo compostos naturais bioativos [flavonoides] antifúngicos como naringenina e diosmina. Porém, em resposta, o fungo também gera compostos bioativos como brevianamida F e desoxibrevianamida E”, detalha Evandro Silva, bolsista da Fapesp e primeiro autor do estudo.
Os cientistas ainda aplicaram técnicas de imageamento por espectrometria de massa para mapear onde essas moléculas estão localizadas durante a infecção. “O patógeno não apenas confronta as defesas da fruta mas também ataca os microrganismos benéficos [endofíticos] presentes na casca que tentam defendê-la. Ele utiliza esses compostos para alterar a comunidade microbiana ao seu favor enquanto enfrenta as defesas do fruto. Isso resulta em uma luta multifacetada onde ele consegue prevalecer sobre outros microrganismos”, explica Fill.
Os pesquisadores ressaltam que identificar as moléculas produzidas pelo patógeno é um passo inicial importante para criar estratégias específicas de controle. “Nosso laboratório tem se dedicado a descrever como ocorre o ataque dos patógenos e reconhecer os metabólitos que eles utilizam. Isso possibilita desenvolver inibidores mais seguros para o meio ambiente, menos prejudiciais à saúde humana e com menor risco de resistência fúngica ou bacteriana”, conclui a pesquisadora.
