Estudo da USP revela que calor intenso e poluição elevam riscos de AVC em pessoas idosas; dicas de prevenção são essenciais

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) realizaram um estudo que revela que cada dia adicional de calor extremo em São Paulo aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC) agudo em indivíduos com 65 anos ou mais. Para fins da pesquisa, uma onda de calor foi definida como a ocorrência de pelo menos dois dias seguidos com temperaturas máximas igual ou superiores a 33,1 °C.

A situação se agrava quando essa temperatura elevada está associada à poluição atmosférica provocada por material particulado fino PM10, que consiste em partículas microscópicas resultantes principalmente da combustão de combustíveis fósseis e poeira inalável, comuns no ar da cidade. Os dados indicam que com cada dia adicional sob essas condições, aumenta a chance de AVC entre os idosos paulistanos.

Resultados iniciais do estudo foram apresentados por Alessandra Carvalho Goulart, professora da Faculdade de Medicina da USP, durante uma palestra na FAPESP Week Países Baixos, evento realizado no campus da Universidade de Leiden até esta quinta-feira (29).

“Esta é a primeira pesquisa epidemiológica populacional que quantifica o impacto direto e imediato do estresse térmico sobre o risco de AVC agudo em idosos na maior metrópole da América Latina”, declarou Goulart à Agência FAPESP.

Metodologia do Estudo

Os pesquisadores fundamentaram seus achados em dados do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), um projeto também desenvolvido pela USP com apoio da Fapesp. O EMMA visa compreender a epidemiologia das doenças cerebrovasculares, fatores de risco e prognóstico de mais de mil pacientes diagnosticados com AVC isquêmico entre os anos de 2006 e 2018.

Para esses resultados, o grupo focou em uma amostra específica de 769 pacientes diagnosticados com AVC agudo, dos quais 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham idade igual ou superior a 65 anos. Utilizando modelos estatísticos, as condições climáticas e a qualidade do ar nos dias anteriores ao evento neurológico foram comparadas. Assim, foi possível calcular o efeito cumulativo associado a cada dia extra sob ondas de calor.

No modelo que considerou apenas o impacto térmico, foi identificada uma razão de chances de 1,121. Quando incorporada a interação contínua entre ondas de calor e níveis de PM10, essa razão subiu para 1,404, indicando um aumento significativo de 40,4% no risco por dia adicional sob essa combinação adversa.

“Os dados preliminares do EMMA demonstram que as mudanças climáticas e a poluição não são meramente ameaças distantes, mas estressores imediatos que impactam diretamente a saúde cerebral dos idosos”, enfatiza Goulart.

A pesquisadora detalha que a exposição ao calor intenso provoca reações fisiológicas adversas no corpo. A sobrecarga térmica leva à desidratação, aumentando a viscosidade do sangue. Além disso, afeta negativamente a termorregulação e a função cardiovascular. “Essas alterações influenciam o fluxo sanguíneo e podem ser gatilhos diretos para AVC”, explica.

Mecanismos Protetores contra Danos Cerebrais

Os pesquisadores também analisaram como hábitos saudáveis e cuidados cardiovasculares podem proteger contra a doença dos pequenos vasos cerebrais (DPVC), caracterizada por alterações nas pequenas artérias cerebrais que podem resultar em comprometimento cognitivo e demência.

No Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), a equipe monitorou 1.285 participantes (com 61,2% sendo mulheres na faixa dos 66 anos) ao longo de quatro fases entre 2008 e 2024. O ELSA-Brasil é considerado o maior estudo epidemiológico longitudinal da América Latina sobre doenças crônicas não transmissíveis.

“Analisamos continuamente a saúde cardiovascular utilizando o escore Life’s Essential 8, que avalia oito fatores essenciais à saúde”, relata Goulart. Os resultados mostraram que um aumento de 10 pontos neste escore está associado à redução de 14% no risco para lesões significativas nos pequenos vasos cerebrais.

Protetores Cognitivos

A prática regular de atividades físicas também se destacou como um importante protetor contra o declínio cognitivo e memória. Em uma amostra de 1.200 participantes do ELSA-Brasil – com 59,2% sendo mulheres na faixa dos 66 anos – os resultados mostraram que níveis moderados a altos de atividade física estão relacionados à diminuição entre 21% e 22% na probabilidade de apresentar marcadores associados à DPVC.

“Além da redução das lesões microvasculares cerebrais, observamos que a atividade física ajuda na preservação do volume do córtex entorrenal, crucial para funções relacionadas à memória”, aponta Goulart. A análise revelou uma diminuição entre 21% e 30% no risco de atrofia cortical nessa região cerebral entre os participantes mais ativos.

Para garantir precisão diagnóstica no ELSA-Brasil, métodos avançados foram utilizados para medir níveis de atividade física moderada a intensa através de sensores portáteis durante uma das fases do estudo (2017-2019).

A avaliação da integridade neurológica foi realizada por meio de ressonância magnética cerebral em alta resolução iniciada em 2023. Os pesquisadores isolaram os efeitos da atividade física considerando variáveis como idade, sexo e condições preexistentes como hipertensão e diabetes.

“Os achados do ELSA-Brasil confirmam que cuidados cardiovasculares aliados à prática regular são fundamentais para manter a saúde cerebral em grandes cidades encolhendo rapidamente”, alerta Goulart.

Goulart ressalta que os resultados convergentes dos estudos EMMA e ELSA-Brasil demonstram que garantir qualidade vida para idosos urbanos requer ações coordenadas urgentes diante do envelhecimento acelerado na América Latina. Em São Paulo, por exemplo, houve um crescimento superior a 50% na população idosa entre os anos de 2010 e 2022; atualmente existem mais de dois milhões dessa faixa etária na capital paulista.

“Proteger a saúde cerebral em cidades envelhecendo rapidamente demanda estratégias duplas: cuidados cardiovasculares individuais combinados com iniciativas efetivas para adaptação climática nas áreas urbanas”, conclui Goulart.

De acordo com Goulart, o alto índice observado nos exames indica uma mudança significativa no perfil neurodegenerativo entre os idosos. “Nossos dados mostram uma prevalência muito maior nos eventos vasculares cerebrais comparado aos casos diagnosticados com doença de Alzheimer nesta população.” Para ela, isso reforça ainda mais a necessidade urgente focar no cuidado cardiovascular como estratégia principal contra demência e declínio cognitivo na terceira idade.

Investigação sobre o Lítio

Apesar das estatísticas sugerirem uma menor incidência da doença de Alzheimer em relação às lesões vasculares cerebrais, as pesquisas por tratamentos eficazes continuam sendo prioridade nas investigações científicas. Um foco recente é o estudo dos efeitos neuroprotetores do lítio sobre essa enfermidade neurodegenerativa realizado pela USP há mais duas décadas.

Sob liderança do professor Orestes Forlenza, ensaios clínicos têm sido realizados com pacientes apresentando sintomas iniciais conhecidos como comprometimento cognitivo leve. Esses testes têm demonstrado que doses subterapêuticas do lítio podem estabilizar perdas cognitivas significativas sem provocar efeitos colaterais severos.

“Pesquisamos o lítio há mais tempo e nossos ensaios clínicos evidenciaram seu potencial para estabilizar perdas cognitivas”, comenta Forlenza. Ele destaca ainda comparações entre dados coletados pelo grupo paulista com novas intervenções farmacológicas disponíveis para Alzheimer: “Curiosamente as novas drogas têm mostrado efeitos estabilizadores semelhantes aos observados com lítio.”

Além das avaliações clínicas realizadas em humanos, investigações laboratoriais utilizando modelos animais geneticamente modificados têm revelado como o lítio atua em processos biológicos relacionados à doença.
As análises laboratoriais indicaram que esse composto ajuda na inibição dos processos disfuncionais nos neurônios ao reduzir acúmulos tóxicos prejudiciais às células cerebrais enquanto melhora aspectos comportamentais relacionados à ansiedade nos animais testados.

“Comprovamos não apenas modificações biológicas benéficas mas também melhoria comportamental nos modelos transgênicos estudados; o lítio parece restaurar funções prejudicadas pela patologia da doença Alzheimer”, conclui Forlenza.

By Itatiba Hoje

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