Edson Braga analisa avanço do varejo sobre novas ocasiões de consumo

Empresário aponta aproximação entre varejo, food service e indústria com crescimento de refeições prontas, finalização em loja e uso de dados

O varejo alimentar está ampliando sua atuação para além da venda tradicional de produtos e assumindo funções antes mais associadas a restaurantes e à própria indústria. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, esse movimento tende a aproximar produção, distribuição e food service.

Padarias, rotisserias, cozinhas internas, refeições prontas, delivery, marcas próprias e canais digitais já fazem parte da operação de diferentes redes.

Ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor está menos ligado a categorias específicas. Em muitas situações, a necessidade não é comprar massa, carne ou molho, mas simplesmente encontrar uma solução para o almoço ou jantar.

Essa lógica coloca as lojas em disputa por ocasiões de alimentação, e não apenas pela cesta de compras.

Refeições passam a competir com categorias

A organização tradicional da indústria e do varejo divide alimentos em segmentos como massas, carnes, bebidas, congelados e laticínios.

Na prática, o consumidor pode comparar alternativas de categorias completamente diferentes para resolver a mesma necessidade.

Uma massa, uma pizza pronta, uma refeição refrigerada, um pedido por aplicativo e um restaurante podem competir pelo mesmo jantar.

Na avaliação apresentada, entender essa dinâmica pode influenciar desenvolvimento, exposição e composição do portfólio.

A análise deixa de considerar apenas qual produto concorre com outro dentro da mesma categoria e passa a observar qual solução disputa a mesma ocasião de consumo.

Lojas ampliam a produção no ponto de venda

A expansão das áreas de alimentação preparada modifica a função operacional do varejo.

Produtos podem chegar da indústria em diferentes estágios de preparação e receber no ponto de venda etapas como cocção, regeneração, montagem, corte ou embalagem final.

Esse modelo permite dividir funções.

A indústria concentra processos que exigem escala, controle, equipamentos e padronização. A operação local executa etapas que se beneficiam da proximidade com o consumidor.

Para Braga, esse arranjo pode abrir espaço para produtos desenvolvidos especificamente para finalização no varejo.

Massas, molhos, proteínas, itens de panificação e sobremesas podem ser projetados considerando equipamentos, volume e rotina das lojas.

O espaço físico busca diferenciação diante do digital

O avanço das compras online também pressiona as redes a ampliar o valor da experiência presencial.

A disponibilidade de produtos, sozinha, pode não ser suficiente para justificar a visita.

Alimentos recém-finalizados, degustação, aroma, orientação e descoberta são elementos que o ambiente digital reproduz com mais dificuldade.

Por isso, áreas de preparação podem assumir função comercial além da produção.

Uma padaria que assa dentro da loja, por exemplo, também utiliza aroma, temperatura e aparência como elementos de exposição.

O espaço físico passa a competir por atributos que vão além da conveniência de compra.

Dados ampliam capacidade de testar produtos

Outra vantagem do varejo está no volume de informações geradas pelas compras.

Com os instrumentos adequados e respeitando regras de privacidade, redes podem identificar combinações de produtos, frequência, recompra e diferenças regionais.

Esses dados podem apoiar testes de preço, embalagem, gramatura, receita e posicionamento.

Uma das diferenças mais relevantes está entre intenção e comportamento.

Pesquisas podem indicar se um consumidor afirma que compraria determinado produto. O varejista consegue observar se a compra realmente ocorreu e se houve recompra.

Essa capacidade aproxima o canal do desenvolvimento de produtos.

Marcas próprias aumentam integração com a indústria

O fortalecimento das marcas próprias também amplia a participação do varejista na definição do portfólio.

Uma rede pode identificar determinada necessidade, trabalhar com uma indústria parceira, testar o produto em algumas unidades e ajustar a proposta antes de ampliar a distribuição.

Essa dinâmica aproxima dados de venda, P&D e produção.

Para fornecedores, o movimento cria oportunidades em fabricação dedicada e desenvolvimento conjunto.

O varejo deixa de participar apenas da etapa comercial e pode ganhar influência sobre características do produto desde sua concepção.

Informação não substitui desenvolvimento

O uso de dados, porém, tem limitações.

Histórico de vendas mostra o que aconteceu, mas não necessariamente identifica produtos que ainda não existem.

Por isso, análise de comportamento precisa ser combinada com desenvolvimento, experimentação e conhecimento técnico.

Dados podem indicar que determinada combinação vende bem ou que um formato possui baixa recompra.

A decisão sobre o que criar a partir dessas informações continua dependendo de P&D e estratégia.

Refeições prontas ampliam a concorrência com food service

A alimentação para levar é uma das áreas em que a sobreposição entre varejo e restaurantes se torna mais evidente.

Ao sair do trabalho, um consumidor pode comprar ingredientes, pedir delivery, ir a um restaurante ou retirar uma refeição pronta em uma loja.

As alternativas resolvem uma necessidade semelhante.

Nesse contexto, uma rede pode começar a acompanhar não apenas participação em categorias, mas quantas refeições consegue atender ao longo do dia.

Esse movimento também cria demanda para fornecedores capazes de desenvolver componentes e produtos adequados à preparação no ponto de venda.

Rede de lojas pode funcionar como infraestrutura de alimentação

Na visão de Edson Braga, o varejo já possui parte importante da estrutura necessária para ampliar esse papel: localização próxima dos consumidores, refrigeração, estoque, logística, equipes e recebimento frequente de mercadorias.

Quando unidades também incorporam equipamentos de finalização, essa infraestrutura pode funcionar como uma rede distribuída de alimentação.

A indústria mantém etapas mais complexas e padronizadas, enquanto o ponto de venda conclui aquilo que se beneficia de proximidade.

O modelo não se aplica igualmente a todas as categorias, mas pode ampliar a integração entre produção, varejo e food service.

Nesse cenário, a principal pergunta deixa de ser apenas qual produto colocar na prateleira.

Passa a incluir outra:

qual necessidade alimentar o consumidor está tentando resolver naquele momento?

Responder melhor a essa questão pode determinar quais redes conseguirão ampliar sua participação não apenas nas compras domésticas, mas também nas refeições do dia a dia.

By Itatiba Hoje