Nova tecnologia identifica regiões urbanas com maior resistência a alagamentos

Uma nova abordagem para mensurar os efeitos das inundações nas bacias fluviais urbanas foi desenvolvida por pesquisadores da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP). Utilizando informações sobre a velocidade e a extensão das enchentes, infraestrutura viária, densidade populacional, níveis de renda e vulnerabilidade social, o método possibilita identificar e mapear as áreas que sofrem os maiores impactos decorrentes das inundações.

Os achados desse estudo, publicados na revista Journal of Hydrology: Regional Studies, têm o potencial de auxiliar na formulação de estratégias para investimentos voltados à prevenção de inundações. O professor José Rodolfo Scarati Martins, coordenador da pesquisa na Poli, afirma: “A investigação propõe uma metodologia inovadora para avaliar a resiliência de bacias hidrográficas em áreas urbanas, levando em conta como as chuvas se comportam no espaço e no tempo; isso inclui a variação da intensidade durante o evento.”

Martins ressalta a relevância deste novo método ao afirmar: “O procedimento mais comum ao diagnosticar sistemas de drenagem em bacias urbanas considera uma distribuição uniforme da precipitação e um comportamento padronizado ao longo do tempo. No entanto, em bacias com área superior a dois quilômetros quadrados (km²), a intensidade da chuva apresenta grandes variações entre diferentes locais e momentos. Isso significa que ocorrências pluviométricas distintas podem provocar impactos mais severos do que os estimados pelos métodos tradicionais.”

A análise focou na bacia do Ribeirão dos Meninos, que integra a bacia do Rio Tamanduateí e abrange partes do município de São Paulo, além das cidades de São Caetano do Sul, Santo André e São Bernardo do Campo, todas localizadas na Região Metropolitana. “Essa bacia é frequentemente afetada por episódios de inundações”, comenta o professor. “É considerada complexa devido à alta taxa de urbanização e aos diversos investimentos realizados em canalizações, reservatórios de detenção e outras medidas para mitigar tais impactos.”

Resiliência frente às inundações

Para medir a resiliência das áreas urbanas às inundações, foram escolhidos indicadores com base em dados sobre aspectos como densidade populacional, renda per capita, vulnerabilidade social, hierarquia das vias, profundidade e velocidade das inundações, além da extensão das áreas afetadas. “Priorizamos fatores que consideram os impactos sobre as pessoas, sendo a vulnerabilidade social um elemento central na resiliência social; ela reflete a capacidade dos grupos de resistir, responder e se recuperar dos efeitos adversos”, explica Martins.

Ele também destaca que “a renda per capita representa um aspecto econômico da resiliência, indicando o potencial para investimento e preparação para recuperação após eventos adversos”. O método utilizado consiste em calcular uma média ponderada desses indicadores até chegar a uma nota que varia entre 0 e 1.

Os pesquisadores inicialmente criaram mapas que delimitam as áreas suscetíveis a inundações resultantes de eventos severos simulados com base no histórico pluviométrico registrado nas estações do Laboratório de Hidráulica da Poli. “Esses mapas são cruzados com os indicadores mencionados anteriormente, resultando em diferentes graus de severidade para cada região e evento”, observa Martins. “Através da codificação por cores nos mapas, foi possível identificar regiões com menor resiliência durante diversos eventos.”

Os dados apontam que a resiliência varia significativamente entre 0,27 e 0,84. As áreas localizadas nas partes mais altas próximas à nascente do ribeirão mostraram maior resiliência e constância ao longo do tempo; já as regiões mais distantes experimentaram maior sensibilidade às tempestades intensas. Algumas sub-bacias montante revelaram reduções na resiliência dependendo do evento analisado, evidenciando vulnerabilidades ocultas que não seriam percebidas por abordagens que consideram chuvas uniformes. Chuvas concentradas espacialmente ou temporalmente tendem a reduzir a resiliência, enquanto padrões pluviométricos mais uniformes promovem respostas mais equilibradas.

Segundo Martins, decisões relacionadas aos investimentos são sempre complexas e podem ser aprimoradas com um conjunto diversificado de ferramentas analíticas. “Os resultados deste estudo podem servir para ajudar na priorização dos investimentos necessários, localização de sistemas de alerta para minimizar impactos negativos e preparação para ações emergenciais”, conclui.

O trabalho foi realizado dentro do Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil do Laboratório de Hidráulica no Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Poli pelo mestrando Luiz Filipe Rodrigues Moreira sob orientação do professor José Rodolfo Scarati Martins e contando com o suporte da equipe responsável pelo monitoramento hidrometeorológico do laboratório. O estudo está detalhado no artigo intitulado Analysis of the effects of the spatiotemporal distribution of intense rainfall on flood resilience in urban catchments, publicado na mesma revista mencionada anteriormente.

By Itatiba Hoje

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