Estudo de Stanford revela que Provão Paulista facilita acesso ao ensino superior

Pesquisador da Stanford University aponta que o Provão Paulista diminui obstáculos ao acesso ao ensino superior

Gabriel Marcondes Koraicho, doutorando na Escola de Educação da Stanford University e natural do Brasil, está utilizando sua vivência acadêmica no exterior para explorar os desafios que alunos da rede estadual de São Paulo enfrentam para ingressar no ensino superior. Sua pesquisa foca nas barreiras que dificultam o acesso e nas aspirações dos jovens, além da discrepância entre o desejo de entrar na faculdade e a participação efetiva em exames como o Provão Paulista Seriado, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e outros vestibulares.

Os primeiros resultados obtidos por Koraicho indicam que iniciativas da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) têm contribuído para reduzir a distância entre os jovens e a vida acadêmica. A aplicação do Provão nas próprias escolas onde os alunos estão matriculados, durante a semana, bem como ferramentas como o Prepara SP, se mostram eficazes nesse processo. Tais achados têm apoiado a implementação de ações junto às instituições de ensino e às famílias dos estudantes.

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Koraicho é graduado em economia pela USP (Universidade de São Paulo) e antes de seu doutorado nos Estados Unidos, completou um mestrado na Fundação Getúlio Vargas, onde já se dedicava a estudar políticas públicas voltadas ao acesso universitário, incluindo o Enem. Atualmente, em parceria com a Seduc-SP desde 2024, ele busca entender as barreiras percebidas pelos próprios estudantes. “Decidimos escutar os alunos diretamente para saber quais são as principais dificuldades que eles enfrentam”, explica sobre seu projeto em colaboração com seu orientador.

A pesquisa coletou mais de 200 mil respostas de estudantes da rede pública paulista. Os dados preliminares revelaram um panorama surpreendente: mais de 80% dos participantes manifestaram interesse em ingressar no ensino superior nos dois anos seguintes à conclusão do Ensino Médio. “Esse resultado me impressionou inicialmente”, afirma Koraicho. “Mais de 80% dos alunos afirmam querer continuar seus estudos nas duas pesquisas realizadas, tanto no início quanto ao final do ano. Isso demonstra uma forte motivação pelo ensino superior”.

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Entretanto, o estudo também revelou um significativo descompasso entre intenção e realidade. Apesar do entusiasmo pela faculdade, apenas 47,5% dos estudantes disseram ter comparecido aos dois dias do Enem em 2024 durante a fase inicial da pesquisa. Para Koraicho, essa discrepância evidencia uma lacuna crítica entre os desejos dos alunos e as ações necessárias para concretizá-los. “Embora exista interesse, as atitudes que os alunos tomam não correspondem necessariamente ao esperado nesse processo”, observa ele, ressaltando a importância do envolvimento familiar e das iniciativas escolares.

Além disso, a pesquisa traçou distinções relevantes entre o Enem e o Provão Paulista Seriado. Os dados mostraram que a participação no Provão foi aproximadamente 20 pontos percentuais maior do que no Enem. Para Koraicho, isso ilustra como aproximar os exames da rotina escolar pode ser benéfico. “O interessante é notar como o Provão ocorre dentro das salas de aula dos alunos, promovendo uma redução significativa das barreiras”.

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Outro ponto importante observado foi a realidade socioeconômica dos estudantes. A maioria deles expressa a intenção de trabalhar logo após terminar o Ensino Médio, equilibrando emprego e estudos. “A maior parte dos alunos relaciona seus estudos ao trabalho; poucos afirmam que só pretendem estudar no ensino superior”, explica Koraicho. Ele argumenta que essa circunstância deve ser considerada pelas universidades e nas políticas públicas: “As instituições ainda possuem uma visão elitista de que os alunos apenas estudam, mas essa não é a realidade da maioria dos brasileiros”.

Apesar das dificuldades identificadas, Koraicho nota percepções positivas por parte dos estudantes em relação à atuação das escolas e das famílias na sua formação acadêmica. “Os alunos veem com bons olhos a participação dos pais e da escola”, relata ele. Contudo, acredita haver espaço para aprimoramento nesse aspecto.

O papel do estado de SP

Com um total superior a 200 mil respostas provenientes de jovens de diversas regiões do estado, Koraicho acredita que sua pesquisa pode auxiliar na formulação de novas estratégias pela rede estadual paulista para apoiar esses alunos. “Esse estudo proporciona evidências importantes sobre esses pontos e pode ser utilizado positivamente na criação de políticas públicas voltadas à educação”, afirma ele. Além disso, espera contribuir com medidas práticas dentro do ambiente escolar para promover melhor interação entre escolas e famílias.

Em 2025, foi lançado pela Seduc-SP o aplicativo Sala do Futuro, voltado tanto aos alunos quanto aos seus responsáveis com o propósito de fortalecer laços entre as famílias e a vida escolar dos filhos. Através desse aplicativo, as famílias podem acessar informações sobre frequência escolar e boletins acadêmicos. Até agora, 615 mil familiares já baixaram essa ferramenta.

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Na versão destinada aos estudantes do aplicativo Sala do Futuro, aqueles matriculados na 2ª e 3ª série do Ensino Médio têm acesso à plataforma Prepara SP — um cursinho online preparatório para vestibulares. Além das trilhas direcionadas ao Enem, foram incluídas atividades específicas para o Provão Paulista Seriado e conteúdo voltado para alunos da EJA (Educação de Jovens e Adultos) neste ano.

“Neste ano tivemos um alcance de 93% da matrícula da 3ª série do Ensino Médio no Prepara SP, oferecendo exercícios práticos, aulas e simulados tanto para o Provão Paulista quanto para outros vestibulares”, informa Diogo Canhadas, assessor da Diretoria de Modalidades da Seduc-SP.

No Prepara SP estão disponíveis aulas dinâmicas com duração variada entre sete a quinze minutos cada uma; além disso há resumos digitais que auxiliam na assimilação do conteúdo abordado em sala de aula. Canhadas ressalta que embora não seja obrigatório usar essa ferramenta ela complementa as aulas regulares oferecendo suporte aos estudantes durante sua preparação para ingressar no ensino superior.

“A pesquisa realizada por Gabriel teve um impacto significativo na reestruturação das nossas estratégias comunicativas neste ano com foco nos alunos e também na interação com os pais através da Sala do Futuro”, comenta Canhadas.

Para Canhadas é evidente que essa pesquisa já está produzindo resultados concretos: “Sabemos dentro da nossa rede como é essencial envolver os pais e professores nesse processo educativo; essas pessoas podem reforçar continuamente junto aos alunos as datas importantes relacionadas aos vestibulares assim como enfatizar a importância dos estudos em suas trajetórias”, conclui.

Outra iniciativa educacional é o FutureME — uma ferramenta oferecida aos estudantes destinada à orientação profissional que pode auxiliá-los na escolha futura da profissão assim como na área acadêmica desejada no nível superior; esse aplicativo é opcional e utilizado durante as aulas voltadas ao projeto de vida presente no currículo destinado aos alunos da 3ª série do Ensino Médio.

Sobre o Provão Paulista

Desde sua criação em três edições anteriores,o Provão Paulista Seriado tem sido uma avaliação promovida pelo Governo Estadual que garante acesso direto à USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Fatecs (Faculdades de Tecnologia do Estado) além da Univesp (Universidade Virtual). Até agora foram abertas mais de 46 mil vagas destinadas não apenas aos alunos oriundos da rede pública paulista mas também aqueles provenientes de outras partes do país.

O formato adotado para aplicação das provas favorece consideravelmente a presença dos estudantes nos dias designados; segundo Koraicho isso se dá porque as provas são aplicadas nas próprias escolas onde eles estão matriculados durante a semana.

O pesquisador expressa suas expectativas sobre os alunos prestes a fazer vestibular com base nas descobertas realizadas junto à rede pública: “Creio que minha pesquisa contribui para intensificar discussões relevantes; por exemplo: qual seria o momento ideal para um aluno realizar um vestibular? Não deveríamos considerar um modelo onde essas provas fossem aplicadas sempre dentro das salas durante todo ano letivo?”

Canhadas salienta a relevância dessa pesquisa ao lançar luz sobre o Provão: “O Governo implementou este exame pioneiro que se destacou positivamente; embora já soubéssemos disso empiricamente agora temos dados concretos demonstrando que eliminamos uma barreira significativa ao aplicar provas dentro das salas onde estão nossos alunos”, conclui.

Relevância educacional

Ao refletir sobre suas motivações pessoais ligadas à pesquisa Gabriel revela como sua trajetória foi impactada pela educação: “A educação desempenhou um papel fundamental na minha vida gerando oportunidades significativas; cresci sob cuidados exclusivamente maternos junto à minha avó então sempre vi nela um diferencial crucial”. Ele acrescenta: “É meu jeito de retribuir à sociedade pelas oportunidades recebidas”.

Embora não venha de uma família tradicionalmente ligada à docência sempre teve grande interesse pelo meio educacional: “Quando era criança pensava muito em me tornar professor”, recorda ele; mesmo atualmente focado na pesquisa acredita que suas experiências em sala são memoráveis: “Comecei estudando economia — algo aparentemente distante da educação — mas encontrei conexões através das políticas públicas”. Para Gabriel esses momentos são os mais gratificantes quando consegue interagir diretamente com os estudantes.

Nos próximos passos sua investigação buscará aprofundar-se em temas relacionados ao ensino técnico bem como planos futuros relacionados ao mercado laboral; pretende ampliar questionários aplicados pela Secretaria da Educação visando entender melhor como os jovens decidem por cursos técnicos ou suas perspectivas profissionais após concluir o Ensino Médio.

By Itatiba Hoje

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