Ex-moradora de rua da capital transforma sua vida em uma Casa Terapêutica do Governo de SP
Ao pegar linha e agulha ou preparar um bolo para suas companheiras, Conceição* demonstra habilidades que desenvolveu ao longo dos anos. Porém, cada ponto de crochê, receita e até mesmo a capacidade de escrever seu nome representam uma trajetória de superação que ela constrói diariamente. Com 64 anos, mãe de dez filhos, mulher negra e residente de uma comunidade periférica, Conceição passou mais de 20 anos vivendo nas ruas da cidade de São Paulo. Nesse período desafiador, enfrentou a dependência química, especialmente em relação ao crack, além de lidar com solidão, violência e preconceito, chegando a perder a esperança em sua própria vida.
Atualmente, após ser acolhida há pouco mais de um ano em uma das Casas Terapêuticas localizadas no Complexo da Lapa — um projeto da Política Estadual sobre Drogas da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo — sua realidade é completamente distinta daquela vivida nas ruas.
Nesse ambiente acolhedor e focado na reabilitação, Conceição redescobriu talentos que estavam adormecidos. Ela aprimorou suas habilidades em crochê e bordado e se destacou na culinária, tornando-se famosa entre as residentes pelos bolos que prepara. Sua popularidade na cozinha foi reconhecida quando as colegas a elegeram como a cozinheira preferida da casa.
Entretanto, nenhuma conquista se compara à emoção que sentiu ao aprender a escrever seu próprio nome.
Durante sua estadia nas Casas Terapêuticas, Conceição conseguiu aprender a ler e escrever. O momento em que registrou sua assinatura diante de um socioeducador se tornou um marco significativo em sua vida. “Se eu tivesse aprendido a ler quando era jovem, talvez não tivesse me perdido no mundo das drogas. Teria encontrado outras oportunidades e seguido caminhos diferentes. Senti-me muito limitada tanto profissionalmente quanto emocionalmente devido às dores que não consegui suportar”, relata.
A alfabetização não trouxe apenas letras; ela restaurou sua autonomia, autoestima e confirmou que nunca é tarde para recomeçar.
Uma trajetória marcada pela resiliência
Originária de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, Conceição construiu sua história em meio a desafios constantes. Casou-se jovem e teve uma família grande com dez filhos — todos homens — incluindo trigêmeos e um caçula com 26 anos atualmente.
Enquanto cuidava do lar e dos filhos, também era responsável pelo sustento familiar, vendendo chocolates em estações de transporte público e realizando faxinas para complementar a renda.
No entanto, essa rotina era marcada por dores invisíveis. Além das dificuldades financeiras, ela enfrentava agressões verbais constantes e humilhações dentro do lar. O fardo de sustentar sozinha uma família tão numerosa se somava ao sofrimento causado por um relacionamento violento.
Ao descobrir infidelidades do marido, Conceição sentiu que não conseguia mais suportar aquela realidade opressiva. Sem ver alternativas viáveis para escapar da dor emocional, buscou refúgio nas ruas.
Assim se passaram mais de duas décadas vivendo em situação de rua. Durante esse tempo, ela se viu imersa nas chamadas “cenas abertas” de uso de drogas e entrou em um ciclo vicioso que parecia sem saída. A vida na rua também deixou marcas físicas; Conceição sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que afetou parte de sua mobilidade.
Hoje em dia, além do acolhimento social recebido, ela conta com acompanhamento especializado e sessões regulares de fisioterapia para auxiliar sua recuperação.
Um futuro ressurgente
Aqueles que encontram Conceição atualmente percebem uma mulher capaz de cuidar de si mesma, interagir socialmente e expressar afeto — algo impensável durante os períodos mais críticos de sua vida.
Ela reconhece as mudanças positivas: aprendeu a cuidar melhor de si mesma, desenvolver paciência com os processos da vida e respeitar seu próprio tempo enquanto reconstrói suas esperanças no futuro.
Agora ela almeja compartilhar o conhecimento adquirido ao longo dessa jornada. Entre seus planos está ensinar costura, bordado, crochê e culinária para outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes aos seus antigos obstáculos.
“Conceição é uma das acolhidas mais comprometidas com seu processo de reconstrução. Sua trajetória evidencia o impacto transformador proporcionado pela metodologia das Casas Terapêuticas. O atendimento biopsicossocial qualificado oferecido nesses espaços possibilita mudanças profundas na vida das pessoas”, afirma Rafael Olivatto, coordenador do Complexo das Casas Terapêuticas da Lapa.
Cuidado transformador
A experiência vivida por Conceição exemplifica os resultados positivos da Política Estadual sobre Drogas implementada pelo Governo do Estado de São Paulo. Essa política articula diversas áreas para oferecer atendimento integral às pessoas vulneráveis.
Entre as ações estão os Complexos das Casas Terapêuticas e os Espaços Prevenir — estruturas criadas para ampliar o acesso à prevenção e ao acolhimento enquanto ajudam na reconstrução dos projetos pessoais dos atendidos.
Neste 26 de junho — Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) — histórias como a dela mostram que enfrentar o problema das drogas implica também oferecer oportunidades reais junto ao cuidado humanizado.
Mais do que vencer a dependência química, Conceição reencontrou a fé em si mesma.
E agora consegue narrar essa história com suas próprias mãos pela primeira vez.
*nome fictício utilizado para preservar a identidade da entrevistada
Sobre as Casas Terapêuticas
Os dados evidenciam o impacto significativo desse programa: desde sua inauguração em janeiro de 2023 até maio deste ano, as Casas Terapêuticas já acolheram aproximadamente 1.400 pessoas em todo o estado.
A metodologia adotada nesse serviço visa romper com quaisquer aspectos relacionados à institucionalização garantindo um processo baseado em evidências científicas associado ao acolhimento residencial gratuito. A abordagem é estruturada em quatro fases progressivas respeitando o tempo e as necessidades individuais dos acolhidos.
Na fase inicial chamada Acolher são recuperadas habilidades básicas. Os atendidos reaprendem tarefas cotidianas como autocuidado e organização pessoal enquanto participam também de terapias individuais além de atividades socioeducativas e culturais num ambiente seguro.
Na fase Despertar é promovido o desenvolvimento social visando à construção da autonomia pessoal dos acolhidos.
A etapa Transformar aprofunda o trabalho terapêutico preparando-os para os desafios sociais futuros. Por fim, na fase Caminhar busca-se desenvolver as potencialidades individuais promovendo retorno aos estudos ou reintegração ao mercado laboral até alcançar autonomia financeira com moradia própria.
Após completar essas quatro etapas do programa os acolhidos continuam recebendo acompanhamento técnico por pelo menos seis meses como forma preventiva contra recaídas garantindo suporte contínuo durante sua reintegração social — essencial para consolidar conquistas alcançadas evitando retrocessos no processo recuperativo.
Por meio da Diretoria de Políticas Sobre Drogas (DPOD), as Casas Terapêuticas atuam integradas ao sistema municipal e estadual de saúde incluindo Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além da colaboração com redes sociais educativas assistenciais. A equipe multidisciplinar é composta por coordenadores psicólogos assistentes sociais educadores mentores financeiros entre outros profissionais capacitados.
Com funcionamento já estabelecido na capital paulista regiões como Osasco e São José do Rio Preto o contínuo crescimento deste programa reafirma o compromisso do Governo Estadual com políticas públicas efetivas voltadas à dependência química além da promoção da dignidade humana.
Esse serviço integra a Política sobre Drogas do Governo do Estado sob coordenação da Secretaria de Desenvolvimento Social reafirmando a crença no tratamento como caminho fundamental para transformar vidas proporcionando novas trajetórias marcadas pela superação das vulnerabilidades sociais relacionadas ao uso abusivo dessas substâncias psicoativas.
