Vacinação contra a gripe: saiba como é realizada a vigilância do vírus influenza e a seleção das cepas para o imunizante
Anualmente, antes do início da vacinação contra a gripe, pesquisadores de diversas partes do planeta enfrentam um desafio importante: quais cepas do vírus influenza têm maior chance de circular nas próximas temporadas nos hemisférios Norte e Sul? A resposta a essa questão é obtida através de uma ampla rede global de monitoramento que observa as alterações do vírus e orienta a formulação das vacinas futuras. Um exemplo é a vacina trivalente produzida pelo Instituto Butantan, disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“Esse esforço contínuo é coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e envolve centenas de laboratórios em mais de 130 países”, comenta Isabela Carvalho Brcko, pesquisadora especializada em vírus respiratórios e pós-doutoranda no Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) do Instituto Butantan.
A vigilância fornece dados coletados em várias regiões do mundo, permitindo a produção de milhões de doses que protegem a população contra o Influenza, um vírus que está sempre se modificando. Segundo informações da OMS, anualmente cerca de um bilhão de casos de gripe sazonal são registrados globalmente, com três a cinco milhões podendo evoluir para formas graves da doença.
Diversidade dos vírus da gripe
O vírus influenza apresenta características distintas, começando por sua diversidade. Atualmente, conhecem-se três tipos que circulam entre os humanos: Influenza A, B e C; no entanto, apenas os dois primeiros são responsáveis por epidemias sazonais.
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A gripe do tipo “A” é subdividida em subtipos com base na combinação de duas proteínas presentes em sua superfície: hemaglutinina (HA), que atua no reconhecimento e infecção das células respiratórias; e neuraminidase (NA), que facilita a liberação das partículas virais no corpo.
Atualmente, existem 18 subtipos conhecidos de hemaglutinina e 11 de neuraminidase. Os subtipos mais comuns entre os humanos são o influenza A(H1N1) e A(H3N2), os quais precisam ser incluídos na vacina contra a gripe.
Por outro lado, o vírus influenza “B”, embora também contenha hemaglutinina e neuraminidase, é dividido em duas linhagens: Victoria e Yamagata. Contudo, desde 2020 não há registros da circulação da linhagem Yamagata. Cientistas acreditam que ela pode ter sido extinta devido às restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Assim, a OMS recomenda apenas a inclusão da cepa Victoria na vacina trivalente.
Um vírus em constante mudança
Uma característica importante do vírus influenza é sua rápida capacidade de mutação – um mecanismo evolutivo que assegura sua sobrevivência. “Essas mudanças normalmente ocorrem na região do epítopo, ou ‘cabeça’, da hemaglutinina. Essa área é crucial para o reconhecimento e fixação nas células saudáveis do hospedeiro”, esclarece Isabela Brcko.
Com o tempo, essas mutações se acumulam até que o vírus consiga “escapar” da resposta imunológica do organismo, resultando em novas variantes. É essa variação antigênica que possibilita múltiplas infecções por diferentes cepas do vírus influenza ao longo da vida, justificando assim as constantes atualizações na vacina contra a gripe.
“Nem todos os subtipos do vírus mudam com a mesma frequência. O A(H3N2), por exemplo, apresenta uma taxa de mutação mais acelerada em comparação ao A(H1N1). Já o Influenza B tem uma taxa ainda mais lenta”, nota a especialista do CeVIVAS.
O fenômeno conhecido como rearranjo antigênico também pode ocorrer. Esse processo implica mudanças mais drásticas no genoma viral, como a troca completa de segmentos genéticos. “Essas alterações podem afetar diretamente tanto a infectividade – capacidade do vírus se espalhar rapidamente – quanto a virulência – gravidade dos sintomas provocados pela doença”, acrescenta Brcko.
O papel do Brasil na vigilância global do influenza
Desde o final dos anos 1940, a OMS estabelece vigilância sobre o vírus da gripe com o intuito de recomendar atualizações anuais nas vacinas destinadas ao combate à doença nos hemisférios Sul e Norte e identificar precocemente mutações preocupantes para implementar estratégias eficazes contra sua disseminação.
Esse trabalho atualmente é liderado pelo Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe (GISRS), uma rede composta por centenas de laboratórios em mais de 130 países. O Brasil participa com um grupo nacional formado por 27 Laboratórios Estaduais Centrais de Saúde Pública (Lacens) além de três laboratórios especializados em influenza reconhecidos pela OMS: Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro (RJ), Instituto Adolfo Lutz em São Paulo (SP) e Instituto Evandro Chagas em Ananindeua (PA).
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Isabela Brcko explica que o monitoramento começa nos postos de saúde. Conhecidas como “sentinelas”, essas unidades são encarregadas da coleta contínua e padronizada de amostras dos pacientes com Síndrome Gripal (SG) – infecções respiratórias passíveis de disseminação – e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) – infecções severas acompanhadas por dificuldades respiratórias – conforme as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
As amostras são enviadas aos Lacens para identificação inicial dos vírus influenza circulantes no país. Mensalmente, cada Lacen deve encaminhar cerca de dez amostras virais para seus respectivos centros referenciais. Esses laboratórios realizam análises complementares como caracterizações antigênicas e genéticas além testes sobre resistência viral.
Após essa fase analítica, os laboratórios Fiocruz, Adolfo Lutz e Evandro Chagas compartilham informações cruciais com o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) localizado em Atlanta, EUA.
Como referência na vigilância do vírus influenza nas Américas, o CDC conduz avaliações aprofundadas além das feitas nos centros locais. “Um desses testes avalia se as vacinas aplicadas naquela temporada apresentam alto, médio ou baixo grau de proteção contra os subtipos analisados”, explica Brcko.
Após as análises concluídas, o CDC consolida informações científicas provenientes dos diversos países das Américas e as envia à OMS.
Vigilância orientando proteção populacional
Com as informações coletadas pelos centros referenciais das Américas, Reino Unido, Austrália e Japão, especialistas da OMS realizam uma análise detalhada para formar uma compreensão abrangente sobre quais vírus estão predominantes globalmente e suas potenciais evoluções.
“A seleção das novas cepas envolve uma complexa matemática onde se consideram os tipos virais mais frequentes mundialmente além daqueles menos comuns que podem escapar das vacinas disponíveis”, observa Isabela Brcko.
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Esse escape vacinal mencionado pode reduzir a eficácia da vacina porque o corpo foi preparado para combater uma versão ligeiramente diferente do agente infeccioso real.
O resultado dessa complexa análise é divulgado pela OMS duas vezes ao ano, aproximadamente seis meses antes do início das campanhas vacinais. Isso garante tempo suficiente aos fabricantes para produzir as vacinas atualizadas antes do inverno – época propensa ao aumento da circulação do vírus influenza.
Em fevereiro ocorre o anúncio focado nas vacinas para o hemisfério Norte; enquanto setembro marca quando são divulgadas as cepas recomendadas para as vacinas no hemisfério Sul global.
Para 2026 no hemisfério Sul foram selecionadas as seguintes cepas: A/Missouri/11/2025 (H1N1)pdm09; A/Singapura/GP20238/2024 (H3N2); B/Áustria/1359417/2021 (linhagem B/Victoria), sendo que as duas primeiras apresentaram alterações comparadas ao ano anterior.
Para 2026/2027 no hemisfério Norte foram indicadas as cepas A/Missouri/11/2025 (H1N1)pdm09; A/Darwin/1454/2025 (H3N2); B/Tóquio/EIS13-175/2025 (linhagem B/Victoria). Todas essas cepas foram modificadas em relação às vacinas utilizadas na última campanha naquela região.
O Instituto Butantan é responsável anualmente pela produção superior a 80 milhões de doses da vacina anti-gripe; seu trabalho inicia imediatamente após os anúncios realizados pela OMS devido à fabricação das formulações para ambos os hemisférios.
Importância da vacinação e atuação do CeVivas
A vacinação anual contra a gripe permanece como principal estratégia para minimizar casos graves, internações hospitalares e óbitos associados ao vírus influenza. Desde março desse ano, o imunizante trivalente produzido pelo Instituto Butantan está acessível nas salas de vacinação nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.
Os estados Amazonas, Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá e Tocantins recebem vacina com composição referente ao hemisfério Norte devido às especificidades climáticas daquela região; assim sendo sua campanha acontece no final do ano.
Embora crianças pequenas, gestantes puérperas e idosos sejam os principais focos da vacinação em algumas localidades – como São Paulo, Goiás e Ceará –, neste último caso está disponível para toda população acima dos seis meses sem limite máximo etário visando conter o avanço viral diante das baixas taxas vacinais registradas este ano: pouco mais de 40% dos grupos prioritários foram vacinados até agora segundo dados oficiais.
“Além disso contribuir significativamente para controle da doença,a vacinação reduz também ‘a população’ viral existente no ambiente. Esse fator é crucial pois impacta diretamente na diminuição potencial na ocorrência futura novas mutações virais”, enfatiza Isabela Brcko.
O Instituto Butantan também desempenha um papel essencial na vigilância genética dos vírus influenza no Brasil através das ações desenvolvidas pelo CeVivas. Desde seu lançamento em 2022 esse projeto complementa esforços oficiais promovidos pela OMS gerando dados adicionais sobre os tipos virais circulantes nacionais ajudando assim na caracterização precisa desses agentes patogênicos.
Outra linha investigativa perseguida pelo CeVivas visa entender como diferentes regiões brasileiras se interconectam na propagação desse coronavírus específico . Estudos demonstraram que Sudeste detém posição central nesse processo enquanto Brasil contribui como ‘exportador’ desse patógeno infeccioso aos demais países sul-americanos; tal conhecimento pode guiar futuras intervenções sanitárias efetivas.
Além disso,o CeVivas investiga também aspectos relacionados à evolução ecológica dos coronavírus SARS-CoV-2 bem como dengue .
