Covid longa: iniciativa inovadora reúne 15 especialidades e diminui a busca incessante por atendimento
Durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19, a doença era vista predominantemente como uma infecção respiratória. Contudo, com o passar do tempo, ficou evidente que o coronavírus apresenta um impacto muito mais abrangente sobre o organismo. Quando pacientes recuperados começaram a relatar sintomas persistentes, como fadiga crônica, tonturas, dores no corpo, falta de ar, refluxo, formigamentos e queda de cabelo, tornou-se claro que as sequelas para muitos seriam duradouras.
O reconhecimento formal da “Covid longa” pela Organização Mundial da Saúde (OMS) foi um importante passo, mas a trajetória desses pacientes continuou repleta de desafios. Muitos se viram enfrentando uma verdadeira maratona em clínicas e consultórios, submetidos a exames fragmentados por especialistas que não se comunicam entre si. Para alterar essa situação, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) decidiu inovar na abordagem científica. Eles desenvolveram um modelo interdisciplinar inédito que considera o paciente como um todo.
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“O grande desafio durante a fase aguda da Covid era compreender como lidar com uma enfermidade tão sistêmica. Ao analisarmos o pós-covid e suas consequências, percebemos que o atendimento também necessitava ser holístico. Era essencial levar em conta o coração, os pulmões e os rins… mas, acima de tudo, as interconexões entre eles. Em nosso organismo, nenhum órgão opera isoladamente”, ressalta a pesquisadora Laura Azevedo ao Jornal da USP.
Integrar diferentes especialidades médicas em torno de métodos e definições comuns é uma tarefa complexa, mesmo nos mais renomados centros médicos do mundo. Contudo, a equipe da USP conseguiu mobilizar 22 grupos de pesquisa oriundos de 15 áreas distintas para estudar os efeitos prolongados da Covid-19.
O modelo criado foi documentado em um artigo publicado na revista Clinics com Laura Azevedo como primeira autora. Esse novo método possibilitou que os participantes realizassem uma série abrangente de exames — incluindo tomografias, ecocardiogramas e testes cardiopulmonares — em apenas dois dias de atendimentos presenciais. No total, cerca de 11 mil exames foram realizados pela equipe.
Ao invés de cada especialidade seguir um protocolo isolado, as investigações foram harmonizadas. Quando duas áreas requeriam avaliações semelhantes ou análises laboratoriais idênticas, os procedimentos foram unificados. Assim, os pacientes podiam realizar um único exame que atendia a múltiplos grupos de pesquisa. Essa estratégia resultou na diminuição do desperdício de recursos e otimizou tanto o volume de sangue coletado quanto o tempo e desconforto enfrentados pelos participantes.
Os resultados do estudo demonstraram que é possível conduzir uma pesquisa científica detalhada sobre uma doença complexa sem sobrecarregar os pacientes, servindo como modelo para futuras questões relacionadas à saúde pública.
“A aplicação [do modelo] provou que a pesquisa interdisciplinar eleva o envolvimento dos pacientes, minimiza a fragmentação e apoia investigações eficazes e de alta qualidade”, afirmaram os pesquisadores.
Detalhes do acompanhamento realizado
A investigação fez parte de um estudo coorte já existente pelo Grupo de Estudos da Covid-19 com pacientes do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. Nas primeiras avaliações (realizadas entre seis e 11 meses após a alta), 83% dos participantes ainda apresentavam pelo menos um sintoma — sendo os mais frequentes fadiga, tonturas, dores no corpo e falta de ar (dispneia), o que justificou a necessidade de acompanhamento prolongado por quatro anos.
Na fase mais recente do estudo, os pacientes foram avaliados entre 41 e 47 meses após receberem alta hospitalar em um fluxo dividido em quatro etapas principais:
- Teleconsulta (remota): Realizada para coleta de dados sociais e históricos médicos além da aplicação de escalas para avaliar sintomas como cansaço e distúrbios do sono.
- Primeira visita presencial: Os participantes passavam a tarde no hospital realizando coletas de sangue e urina, eletrocardiogramas e testes físicos.
- Segunda visita presencial: Dedicada à realização de exames mais complexos pela manhã e início da tarde — incluindo tomografias e ecocardiogramas.
- Sessão de feedback: Uma nova consulta remota onde médicos explicavam detalhadamente os resultados dos exames aos pacientes; caso fossem detectadas novas anomalias ou sequelas graves, eram encaminhados imediatamente para cuidados necessários.
“O volume dos exames realizados provavelmente não estaria disponível aos pacientes na rede pública”, destaca Laura Azevedo. Ela ilustra: “Temos aqui um tomógrafo com tecnologia avançada.” Este equipamento possui 320 detectores que permitem adquirir imagens com dupla energia. No tórax, por exemplo, possibilita reconstruir mapas que mostram perfusão pulmonar através da distribuição do iodo nos tecidos pulmonares. “Nosso objetivo era examinar as pequenas vias aéreas e verificar se havia Tromboembolismo Pulmonar no paciente — algo comum durante a fase aguda”, explica a pesquisadora.
Além disso, esse modelo inédito possibilitou cruzar dados diversos para investigar características complexas da condição clínica em quatro áreas principais: fadiga crônica, inflamação sistêmica, perda funcional muscular e predisposição genética.
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As descobertas foram centralizadas em um banco de dados acessível aos cientistas envolvidos na pesquisa. Agora cada equipe utilizará essas informações para analisar resultados específicos enquanto grande parte das publicações geradas manterá o caráter interdisciplinar do projeto.
“Dispomos agora de um vasto banco de dados. Vamos analisar todas essas informações para planejar futuros passos na pesquisa sempre com foco em políticas públicas que proporcionem soluções concretas às pessoas afetadas. Não se trata apenas de diagnosticar; nossa abordagem vai muito além disso!”, afirma Laura Azevedo enfatizando a filosofia predominante no grupo sob liderança do professor Carlos Carvalho.”
Carlos Roberto Ribeiro Carvalho é professor titular da FMUSP e também coautor do artigo mencionado. Ele coordena esta iniciativa que envolve mais de 100 profissionais entre pesquisadores, estudantes e equipes administrativas. O projeto recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) além do suporte da sociedade civil por meio das contribuições dirigidas pela Fundação Faculdade de Medicina.
